
I
Peguei carona numa nave cansada
Pois quis ver dos céus a Natureza,
No espaço construí a minha nova morada,
Para ficar sempre em sentinela
No intuito de descobrir
Os motivos belos do riso dela...
Vi seres de asas cortadas
Planarem o corpo dela,
Tive os espasmos de um ciúme maldito!
Em meus olhos labaredas de Prometeu
Incentivaram-me na transformação de réu...
Tive os olhos julgados,
Enquanto a consciência esperava
O processo,
Tive antes de tudo,
Meus sonhos aprisionados...
Ó sonhos dolorosos, ó ato miserável,
Cravaram em mim chagas inesperadas,
Privaram-me de um futuro belo.
II
Tal qual um inseto condenado
Reduzi meus passos
A alguns metros quadrados...
Nas paredes que choravam
Sempre a molharem meu dorso
Pendurei a foto mais bela
Que antes adornava o meu pescoço...
Com minhas mãos frágeis e enrugadas
Acariciei o rosto da dama
Àquela que não se intimidava
Com o Tempo...
Outros sonhos foram nascendo
Neste peito guardado por trapos,
Não mais somente a Natureza
Incentivava-me a viver,
Queria beijar os lábios da Liberdade
E saber qual gosto tinha
Os lábios deste outro ser...
III
Beijei por engano a Dor,
Foi um beijo ardido, seco e prolongado,
Beijei a musa do Pecado...
Enciumado, ele coordenou os céus
A um espetáculo de fúria e frio
Tudo por causa de um amor
Que eu já havia negado...
O tal sujeito enfraquecido
Por este beijo inesperado,
Excomungou-me da Ordem Divina
E fez daquele olhar que fascina
Mais uma prisioneira
Dos seus recônditos espaços...
Depois deste ato de discórdia,
Fui ao encontro de minha nave,
Passei por estrelas apagadas,
Cometas inativos,
A luz nativa do Sol estava cansada...
IV
Feras tiritavam os dentes
Nos anéis de Saturno
Compondo com o vibrado
Uma sinfonia para o Absurdo,
Que de longe ouvia, e via
Meus lábios sussurrando
Nos ouvidos da Agonia
O desinteresse por aquela sinfonia...
V
Meus dias... Pobres dias!...
Companheiros do meu desânimo
São confidentes do Desamor
Que num notório e horrendo gesto,
Mostrou-me o poder da sua cor...
Desvairados olhos de condor
Estes meus, que nunca me abandonam
E sempre me mostram, a Realidade
Nua, crua e gostosa!...
Eu vi a Loucura
Atravessar o meu caminho
Observando-me triste e sozinho,
rio irônica e continuou
A regar em seu jardim
As folhas secas, mortas
Da última flor do universo...
VI
Ao regresso... tudo caminha!
O porvir é tão somente a poeira
Extraída da Lua!...
Ela contentava-se ao ver
O espetáculo decompositório
Daquela que um dia,
Com todos os seus adornos
Mostrou poder, amor e energia...
Hoje o senhor Presente revela,
Que o seu aroma retratava
O cheiro inconfundível da Dor...
VII
Dividido estou, entre três musas
Que sustentam meus levianos prazeres.
Sinto-me como um copo de cicuta
Na amarga espera pela vitima.
Que fiz eu para merecer este dilema,
A Natureza, a Liberdade, a Dor...
Qual delas realmente vale a pena?
VIII
A minha viajem segue
Ao som ecoante dilacerado
Das batidas do meu coração.
Maldigo a esses meteoros
Que se choquem a esta nave
Pois se é pra viver na tormenta
Melhor seria dar a vida por encerrado
Do que viver ouvindo esta maldita canção!...
IX
Sou o Aeronauta que ronda
A esquina dos cosmos variados,
Sou o senhor avaliador de corações
Que neste espaço do Conrado,
Determina um leilão
Com estes órgãos alucinados.
Levanto os meus braços
Como a perfurar as incógnitas
Que revestem minha nave,
Minha mente,
Alcanço sujos meteoros
Recheados de sonhos ausentes
Pois a Morte em momentos passados
Deu àqueles sonhos por acabado.
X
Vejo, com os olhos desregrados,
O Caos despir o universo.
Encontrei na Rota Norte
Cadáveres com néons mutilados
Formando o mais novo cenário
Para o concerto forte
Do maestro sempre iluminado.
Carlos Conrado